Salinas da Margarida: cinquentenário em 27 de julho

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Com a instalação, em 1560, de um estabelecimento religioso na Ilha de Itaparica, pelos padres da Companhia de Jesus, teve início o processo de colonização da área, na qual o município de Salinas da Margarida está inserida. Em 1620 foi edificada uma capela consagrada a N. S.ª da Encarnação, no hoje povoado do mesmo nome. É o primeiro sinal do civilizador em terras salinenses.

No ano de 1717, por iniciativa do Arcebispo Dom Sebastião Monteiro da Vide, foi criada a Freguesia de N. S.ª da Madre de Deus da Pirajuía, na qual a localidade é incluída. Um relatório eclesiástico redigido entre 1755/57 deixa transparecer a diminuta ou quase inexistente população da área. Em termos políticos e administrativos as terras estavam integradas à Vila de Jaguaripe.
Até a instalação da empresa que iniciou o aproveitamento do sal marinho na região, a Ponta da Margarida, hoje a sede municipal, era também um lugar desconhecido. Os poucos núcleos habitacionais existentes em suas proximidades se concentravam na Barra do Paraguaçu, de um lado, e Encarnação, do outro.

A partir de 1877, entretanto, graças à tenacidade, visão comercial e capacidade empresarial de dois grandes homens, os Comendadores Manoel de Sousa Campos e Horácio Urpia Júnior, a localidade passou a ser das mais conhecidas e prósperas do Estado da Bahia. Com a constituição, em 1891, da Companhia Salinas da Margarida, o quadro se inverteria radicalmente, a ponto da região vir a adotar o próprio nome do empreendimento. Suas terras foram demarcadas, no alvorecer do século XX, pelo engenheiro Alberto Flyerrowsky e as plantas das salinas elaboradas pelo engenheiro militar Augusto dos Santos Moreira.

Objetivando facilitar os seus negócios, o Comendador Campos envidou esforços e conseguiu transferir, em 15 de janeiro de 1901, a jurisdição da área para o município de Itaparica, passagem obrigatória para Salvador. O progresso então verificado foi algo fantástico, tornando o nome da localidade conhecido nacional e internacionalmente. A qualidade do sal produzido permitiu à Companhia Salinas da Margarida conquistar, entre outros prêmios, a Medalha de Ouro, em 1908, na Exposição Nacional realizada no Rio de Janeiro, então capital da República.

Tão próspero se tornou o novo distrito de Itaparica que, em 16 de abril de 1914, o Arcebispo da Bahia, Dom Jerônimo Tomé da Silva, baixou portaria elevando à dignidade de Matriz a Igreja de N. S.ª do Carmo, transferindo a sede da freguesia da Senhora Madre de Deus da Pirajuía e alterando sua denominação para Freguesia de Nossa Senhora do Monte do Carmo de Salinas da Margarida.

Em 1943, durante o desenrolar da Segunda Guerra Mundial, Salinas da Margarida abrigou a estação de rádio PWF-4, cuja finalidade primeira era detectar e localizar possíveis estações transmissoras móveis dos países do Eixo. Em 1969 a mesma foi desativada e os equipamentos transferidos para a Base Naval de Aratu, em Salvador.

Com o declínio da produção salineira (em 1956 foram produzidas apenas 20 toneladas), e o descaso a que Itaparica relegou seu outrora próspero distrito, teve início a campanha emancipacionista, à frente da qual esteve Manoel Dias de Albuquerque, que levou a ideia ao Padre Luís Soares Palmeira, então Deputado Estadual. O parlamentar apresentou à Assembleia Legislativa o Projeto de Lei 1945/62, que criava o município de Salinas da Margarida, desmembrado do de Itaparica. Em 27 de julho de 1962 o mesmo foi aprovado e transformou-se na Lei 1755/62, a qual, sancionada pelo governador Juraci Montenegro Magalhães, foi publicada no Diário Oficial do Estado, edição de 31 de julho. Em 7 de outubro do mesmo ano foram realizadas eleições e Manoel Dias de Albuquerque tornou-se o primeiro prefeito municipal, sendo efetivamente empossado no dia 14 de abril de 1963.

Informações gerais – O município de Salinas da Margarida é constituído por um único distrito — a sede municipal. As demais aglomerações urbanas são os povoados de Barra do Paraguaçu, Cairu, Conceição de Salinas e Encarnação. A altitude é de seis metros, em relação ao nível do mar.

A arquitetura civil tem na antiga casa residencial do Comendador Manoel de Sousa Campos a sua construção mais representativa, enquanto a Igreja Matriz, consagrada a Nossa Senhora do Carmo, padroeira local, é exemplo de sua arquitetura religiosa. Entre as festas populares, destaca-se a consagrada a São Roque, no mês de agosto, e os festejos cívicos geralmente comemorados são o 2 de Julho e o 7 de Setembro.

Suas coordenadas geográficas são 12º 52’ de latitude sul e 38º 46’ de longitude oeste, e a cidade dista 265 km por acesso rodoviário da capital e 56 km até o terminal marítimo de Bom Despacho (sistema ferry-boat).

Patrimônio cultural – A negligência e a insensibilidade de vários administradores, tanto antes, quanto após a emancipação do município, permitiu que um valioso patrimônio arquitetônico fosse devastado de forma irremediável. Do glorioso passado restaram poucas edificações, dentre as quais podem ser referidas:

1 — A Igreja de Nossa Senhora do Carmo (matriz), cuja construção foi determinada pelo Comendador Manoel de Sousa Campos, que faleceu antes mesmo do início das obras. Edificada às expensas e em terrenos da Companhia Salinas da Margarida, foi inaugurada em 1914. Francisco Borges de Barros, em seu Dicionário Geográfico e Histórico da Bahia a considera “indubitavelmente a mais bela do Recôncavo e do interior do Estado”. Encontra-se em bom estado de conservação.

2 — A casa residencial do Comendador Manoel de Sousa Campos, localizada na avenida do mesmo nome, a qual foi mandada erigir pelo principal acionista da Companhia Salinas da Margarida, em fins do século XIX. É a mais antiga, bonita e representativa construção civil do município. Acha-se em lastimável estado de conservação, tornando-se necessária uma ação mais efetiva do poder público municipal, até então negligente, no sentido de tombá-la e dar-lhe um destino à altura de seu valor histórico.

3 — O escritório da antiga Companhia Salinas da Margarida, localizado na Av. Comendador Campos, cuja construção data de fins do século XIX. Mantém suas linhas arquitetônicas originais, com pequenas alterações, achando-se em bom estado de conservação.

4 — A Ponte da Nova Veneza, construída pelo Comendador Horário Urpia Júnior, em fins do século XIX, que interligava as salinas Margarida e Salinópolis. Em mais um evidente, censurável e clamoroso caso de negligência do poder público municipal, permitiu-se que sua estrutura sofresse modificações, para por sobre ela ser instalada uma casa destinada a abrigar o vigia dos viveiros de camarões existentes à sua volta.

Adaptação da matéria publicada no site da UPB

(Fonte: Almir de Oliveira é Presidente da Academia de Letras do Recôncavo — Aler, jornalista e historiador, sendo autor, entre outros, do livro Salinas da Margarida — Notícias Históricas).

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